Teurgia do Homem Comum (2)

Fazenda na Normandia de Paul Cézanne, 

Continuamos aqui com nossa série de textos curtos e simples sobre minha visão de Teurgia contemporânea e de sua prática.

Bom, se praticamos algo, precisamos entender o que é esse algo, não podemos trabalhar no escuro. Então o que é essa tal de Teurgia? O problema com essa palavra é que ela chegou até nós carregando uma história semântica densa e nem sempre transparente, atravessando contextos tão distintos que o mesmo termo pode designar coisas radicalmente diferentes dependendo de quem o usa. Antes de dizer o que pratico, preciso dizer o que entendo por esse termo e por que entendo dessa forma e não de outra.

Como conceito técnico, podemos encontrar a origem da teurgia nos Oráculos Caldeus do século II d.C., tendo sua primeira elaboração filosófica rigorosa em Jâmblico. Mas o termo é apropriado posteriormente em outros contextos que não seu berço platonista pagão. Pseudo-Dionísio Areopagita apropria-se do vocabulário teúrgico para descrever a ação dos sacramentos. Em sua teologia, theourgia é a ação divina que se realiza através da liturgia. A estrutura filosófica é reconhecidamente neoplatônica, mas o conteúdo foi radicalmente transformado: os deuses foram reduzidos a anjos (categoria já existente entre os teurgistas pagãos) e substituídos por Cristo como mediador único, fazendo com que a pluralidade de presenças divinas que caracterizava o mundo mediterrâneo antigo fosse reduzida a uma única linha de mediação, eclesiologicamente controlada. Trata-se de algo que tecnicamente poderia se chamar de cristurgia e que, na minha opinião, pouco tem a ver com o que os platonistas pagãos entendiam pelo termo teurgia.

Outra abordagem pode ser vista na magia cerimonial ocidental: a Golden Dawn, no final do século XIX, recupera o vocabulário dos Oráculos Caldeus e do neoplatonismo tardio, mas dentro de um quadro filosófico profundamente diferente, no qual as antigas presenças divinas são interpretadas como “forças cegas”. O que interessa à tradição cerimonial na teurgia são principalmente suas técnicas (os ritos de invocação, os símbolos, as correspondências cósmicas), deslocadas do contexto devocional original. Magistas como Crowley elevam explicitamente a vontade do mago à posição de princípio soberano: se os antigos diziam que os Deuses são a medida de todas as coisas, Crowley diz “não existe Deus além do Homem”. São posições opostas usando, às vezes, o mesmo vocabulário, o que torna a confusão entre elas não apenas possível, mas frequente. Aliás, ciscando perigosamente em terreno que não é meu, o Liber Al Legis parece ter um potencial teúrgico que foi invisível ao seu próprio profeta.

A palavra theourgia (θεουργία) é um composto de theós (θεός, deus, divino) e érgon (ἔργον, trabalho, prática, atividade). A tradução mais imediata seria “trabalho divino” ou “obra divina”. Mas essa tradução já carrega uma ambiguidade: quem é o sujeito dessa operação? Para quem está acostumado com as correntes do esoterismo moderno supracitadas, a resposta parece óbvia: é o praticante quem trabalha; os Deuses são os destinatários ou, em casos mais graves, os instrumentos da operação. Essa resposta é precisamente a antítese daquela na qual busco me firmar.

Jâmblico, em De Mysteriis, deixa muito claro que os verdadeiros agentes da operação teúrgica são os Deuses. O teurgo não “trabalha com os Deuses” como um artesão trabalha com seus materiais; antes, os deuses trabalham através do teurgo, que se torna veículo de uma ação divina que o ultrapassa. Não é o praticante quem conduz, mas ele é conduzido, tal como o camponês que não faz o Sol nascer, mas orienta seu trabalho por ele. Dessa perspectiva, a prática teúrgica é menos uma técnica de domínio e mais uma disciplina de abertura e receptividade ao divino.

Essa inversão é importante para que eu possa distinguir o modo como vejo a teurgia de outras perspectivas, e é por isso que ela precisa vir antes de qualquer discussão sobre técnicas ou práticas específicas. Se os Deuses são os verdadeiros agentes, então a capacidade teúrgica é uma dádiva, e, como tal, ela implica uma relação, não uma posse. O teurgo não é um mago soberano que domina forças cósmicas, um tecnólogo do sagrado,  uma noção que vamos encontrar em figuras muito diferentes dentro da tradição esotérica ocidental, como um Evola ou um DuQuette. A distinção entre o esotericista e o religioso (ou ainda entre religião e metafísica, no sentido guenoniano) seria estranha a pensadores como Jâmblico.

Diferentes pessoas chegam à teurgia por caminhos distintos e tomam coisas diferentes como centrais. Minha postura aqui não é de um ataque ao esoterismo ocidental, mas de diferenciação; é natural que pessoas que estão vindo de lugares diferentes e que estão procurando coisas diferentes terão recepções diversas dos antigos. Esotericistas ocidentais podem se beneficiar de uma ontologia dos símbolos mais robusta que os modelos psicologizantes, mas provavelmente terão críticas à oposição de Jâmblico em relação à magia coercitiva, ou mesmo ao seu politeísmo. Feiticeiros de diversas vertentes irão encontrar uma fenomenologia completa da pluralidade de entidades que povoam as realidades sutis, mas provavelmente terão críticas à distinção jambliquiana entre teurgia e goeteia. A minha entrada é a de um politeísmo devocional, e isso determina o que consideramos importante no nosso diálogo crítico com os antigos.

Não estou dizendo que nada pode ser aprendido com as tradições que transformaram o sentido do termo “teurgia” ao longo do tempo, e nem com outras formas de entender esse termo. Estou dizendo que sabemos de onde estamos falando. A nossa leitura de teurgia não passa pela visão da Golden Dawn nem por Pseudo-Dionísio; e, se dialoga com o campo acadêmico, é para extrair dele o que serve a uma prática honesta, não para substituir a prática pela teoria. E repito: podemos sempre aprender com o outro, pois a clareza de nossas discordâncias não nos torna inimigos naturais. Particularmente, acho o sistema da Golden Dawn munido de uma criatividade simbólica e sistemática majestosa, e busco incorporar algo desse espírito em meus próprios sistemas.

O que me interessa em Jâmblico não é primariamente a teurgia como uma técnica de ascensão para iniciados em um culto iniciático já estabelecido, mas como uma forma de se relacionar profunda e responsavelmente com os Deuses no percurso de uma vida virtuosa e a eles orientada. Dele, criticamente, me afasto em pontos como sua teoria da linguagem, vejo nele a falta de uma categoria de prática hierática que não seja nem teurgia nem goeteia (aqui talvez dialogando produtivamente com os esotericistas através do conceito de magia natural), e ainda outras questões que posso abordar mais tarde. Nada de incomum para quem sabe que a discordância livre e aberta existia mesmo entre os antigos; porém, é importante ter clareza do que e por quê discordamos. Por isso não posso simplesmente jogar pedra nos esotéricos, só dizer que concordamos e discordamos de Jâmblico em lugares diferentes, e que essa diferença é importante para mim.

Com isso, posso oferecer a definição com a qual trabalho ao longo desta série: teurgia é uma forma de prática sagrada por meio da qual o praticante é elevado, através do uso de símbolos e ritos nos quais os próprios Deuses estão presentes, uma participação efetiva na atividade divina, um operar com eles. Os ritos não aludem aos Deuses nem os representam; os Deuses e Daimones estão realmente presentes nos ritos, não “simbolicamente” em um sentido moderno. Essa presença real é o fundamento de toda a eficácia teúrgica e aquilo que distingue essa prática de outras formas de esoterismo que mantêm apenas uma relação representacional com o sagrado.

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