Seminário Permanente de Teurgia (SPT) – Edição 2026 – Segundo Ciclo
Tema:Hekate Soteira: A Study of Hekate’s Roles in the Chaldean Oracles and Related Literature, de Sarah Iles Johnston
O SPT terá no dia 10 de junho o início do seu segundo ciclo de 2026. Iremos discutir a obra Hekate Soteira de Sarah Iles Johnston em seis encontros de frequência quinzenal, com duração média de 1h30 às quartas-feiras, no horário de 19:00 às 21:00, nos dias:
📅 10/06, 24/06, 08/07, 22/07, 05/08 e 19/08
As aulas serão realizadas por videoconferência no Google Meet e também disponibilizadas para que os alunos possam assistir mais tarde de forma assíncrona (acesso à gravação por 30 dias).
Nossas aulas são baseadas na literatura acadêmica atual sobre Teurgia, Neoplatonismo e Filosofia Tardia, se fundamentando em uma abordagem crítica e com foco no praticante.
📖 Plano de Leitura (6 encontros)
Encontro
Data
Leitura
Tópico Principal
1
10/06
Introdução (pp. 1–12) + Capítulo I (pp. 13–20)
Contexto histórico e filosófico; a Alma Cósmica no Timeu de Platão; a importância dos Oráculos Caldeus.
2
24/06
Capítulo II (pp. 21–28) + Capítulo III (pp. 29–48)
Hécate tradicional: deusa das encruzilhadas, da lua, dos daimones e porta‑chaves (Kleidouchos).
3
08/07
Capítulo IV (pp. 49–70) + Capítulo V (pp. 71–75)
Hécate como Alma Cósmica nos Oráculos Caldeus: transmissão das Ideias, vínculo divisor, fonte de vida. Por que ela foi escolhida para esse papel.
4
22/07
Capítulo VI (pp. 77–89) + Capítulo VII (pp. 90–110)
Teurgia vs. magia; sympatheia, symbola e o “pião de Hécate” (iynx) como ferramenta teúrgica e entidade daemoníaca.
5
05/08
Capítulo VIII (pp. 111–133) + Capítulo IX (pp. 134–142)
A epifania de Hécate (fogo informe, anjos, iynges); a separação entre Hécate e Physis (Natureza) e os “cães daemoníacos”.
Hécate como salvadora (Soteira) – síntese de seu papel na magia tradicional e na teurgia; conclusões sobre sua mediação cósmica e pessoal.
Observação: As páginas seguem a edição da American Classical Studies, 1990. Caso o aluno utilize outra edição/PDF, a organização pode adaptar os números, mas a estrutura temática permanece.
💰 Investimento
Pacote completo (6 encontros): R$ 120,00
Valor para quem participou do SPT I.2026 (Crystal Addey): R$ 99,00
Pagamento via PIX: teurgiacritica@gmail.com
(Dúvidas também podem ser enviadas para o e-mail acima)
Vamos partir de onde terminamos: no último texto disse que a capacidade teúrgica não é simplesmente uma aquisição pessoal, fruto de uma perícia técnica acumulada ou de um poder inato que o indivíduo desenvolve por mérito próprio. Ela é, em sua essência, uma dádiva divina. A operação ritual, mesmo quando executada com precisão e conhecimento profundo da hieratikē technē, ocorre em última e decisiva instância, “pela vontade dos Deuses”. É sempre bom bater nesta tecla: o verdadeiro agente da teurgia é sempre o divino, o teurgo humano é o instrumento, o médium, a articulação de seu poder. Sua agência não é anulada, mas é radicalmente reposicionada, se tornando um espaço de acolhimento cada vez mais puro para que a ação divina possa fluir através dele sem obstrução, distorção ou desvio. O teurgo não é um mago soberano que comanda as potências cósmicas, ele é aquele que se oferece humildemente como veículo para a manifestação da providência e do amor divinos no mundo, e somente depois disso e não antes, reconhece através desse ato de humildade a identidade profunda entre o Deus e si mesmo, ou seja, o Teurgo se torna somente o “verdadeiro sujeito” quando ele se reconhece no verdadeiro sujeito que é o Deus.
Esta demarcação do lugar do humano na economia da graça teúrgica é o que permite a Jâmblico estabelecer uma distinção normativa de profunda significância filosófica e ética: a oposição entre teurgia e goeteia. Para compreender essa distinção, é necessário reconhecer a fluidez semântica e prática que caracterizava o campo das artes rituais antes de sua sistematização. O termo goēteia possuía uma história própria, frequentemente carregada de conotações pejorativas. Em muitos contextos, era utilizado como um sinônimo difamatório de mageía, a arte dos magos, embora mageía também pudesse reter um uso técnico respeitoso, especialmente quando referida à arte sacerdotal dos magoi persas, os sacerdotes zoroastristas. Em outras ocorrências, goēteia designava mais especificamente um conjunto de práticas associadas ao universo ctônico: ritos funerários, necromancia e a evocação das almas dos mortos.
No período anterior a Jâmblico, não encontramos uma oposição sistemática e filosoficamente fundamentada entre “teurgia” e “goeteia” como categorias mutuamente exclusivas e eticamente opostas. Os chamados Papiros Mágicos Gregos (PGM), um vasto e heterogêneo *corpus* de textos rituais do Egito greco-romano, documentam um contínuo de práticas que não se enquadram plenamente na cisão feita por Jâmblico. Neles, coexistem procedimentos que um platônico tardio reconheceria, por seu conteúdo e intenção, como afinados com os princípios teúrgicos (invocações a divindades em linguagem de súplica e assimilação, busca por visões divinas e autoconhecimento) lado a lado com práticas que seriam inequivocamente classificadas como goeteicas (fórmulas de coerção, ameaças a divindades, manipulação de daimones para fins mundanos e, por vezes, malévolos). Não há nesse rico e complexo corpus uma fronteira clara ou estável que separe os dois domínios. A distinção normativa que Jâmblico é uma cisão de um continuum, impondo uma ordem a essa paisagem ritual mais ambígua e indiferenciada.
O que fundamenta a distinção jambliqueana entre teurgia e goeteia não é primariamente o tipo de entidade invocada nem se esgota no tipo de ritual empregado, embora, naturalmente, existam práticas cuja própria natureza as vincularia inexoravelmente à goeteia. O fundamento da distinção é de ordem ética e, mais profundamente, ontológica, e diz respeito à posição que o operador humano assume em relação às potências com as quais trabalha. Como já dissemos, no horizonte da teurgia as capacidades manifestadas pelo praticante são reconhecidas como dádivas divinas, sua orientação é radicalmente teocêntrica: o divino constitui simultaneamente a fonte, o meio e a finalidade última da ação sagrada. Essa postura implica uma humildade ontológica perante as hierarquias cósmicas onde o teurgo conhece seu lugar na vasta escala do ser, que se estende dos confins da matéria até os Deuses mais elevados, e age em estrita conformidade com essa ordem, e por isso essa prática é indissociável de uma vida hierática e moralmente comprometida, fundada na philia e na pronoia divinas; a teurgia não é uma técnica que se possa isolar do caráter e da conduta cotidiana do praticante, mas exige dele uma progressiva assimilação às virtudes que são o reflexo do Bem no mundo.
Jâmblico irá definir a goeteia como partindo de um conjunto de pressupostos éticos e ontológicos diametralmente opostos. Onde o teurgo busca esvaziar-se daquilo que em si é inessencial para dar lugar ao divino, o goēs afirma seu próprio ego e instrumentaliza as potências invocadas, tratando-as como meios para a realização de desejos frequentemente mundanos. Sua orientação é antropocêntrica: o desejo e a vontade do operador humano são o verdadeiro motor e a finalidade da prática, podendo haver um desrespeito deliberado pela ordem do cosmos, resultando em tentativas de subverter ou forçar essa mesma ordem em benefício próprio. O goēs não se vê como um instrumento dos Deuses, mas como um agente que se crê soberano, capaz de compelir entidades divinas ou semi-divinas a servi-lo. A prática goeteica é vista por Jâmblico como essencialmente independente de qualquer comprometimento ético-espiritual do operador: a técnica, a fórmula e o rito bastam a si mesmos, sem que se exija do praticante uma transformação interior ou uma vida moralmente orientada.
A diferença não reside primariamente no nome ou na natureza das entidades invocadas, mas na atitude fundamental do coração e da inteligência do praticante perante a ordem sagrada do universo. É importante também aqui evitar uma confusão terminológica frequente, especialmente entre leitores familiarizados com as tradições da magia cerimonial ocidental. A distinção jambliqueana entre teurgia e goeteia não é de modo algum equivalente à distinção que encontramos no esoterismo ocidental, que opõe a teurgia (como trabalho com entidades angélicas) à goécia (como trabalho com espíritos ditos “demoníacos”). Esta última é uma distinção baseada primariamente no tipo de entidade invocada. A distinção jambliqueana, como vimos, é baseada em uma atitude ética e em uma compreensão ontológica. É perfeitamente concebível, dentro do quadro jambliqueano, que um operador trabalhe com entidades da mais alta hierarquia celeste de uma forma que seria rigorosamente classificada como goeteica (se, por exemplo, ele se aproximar de um arcanjo com a presunção de comandá-lo ou forçá-lo a servi-lo como um instrumento de sua vontade soberana), inversamente, é absolutamente possível trabalhar com entidades do mundo ctônico de uma forma alinhada com o espírito teúrgico, se tal trabalho fosse realizado em uma postura de serviço aos Deuses e reconhecimento do lugar dessas entidades na vasta e ordenada hierarquia do cosmos divino.
Convém também esclarecer que o uso de “goeteia” neste texto não se alinha com certas tentativas contemporâneas de reconstruir uma suposta “goécia universal”, uma espécie de ur-necro-religião primordial subterrânea e transcultural, cujos vestígios teriam sobrevivido em grimórios medievais e papiros mágicos da Antiguidade, tal como imaginada por autores como Jake Stratton-Kent. Por mais fascinante que seja como especulação mitopoética ou como bricolagem simbólica para fins operativos modernos, tal empreendimento opera sob uma lógica historiográfica radicalmente distinta daquela que aqui adotamos. Nosso compromisso não é com a construção de uma tradição oculta unificada e atemporal, mas com a elucidação de um momento específico e decisivo na história das ideias (a cisão conceitual operada por Jâmblico no seio do platonismo tardo-antigo) e o significado dessa distinção para pessoas como eu, que buscam esse caminho de prática religiosa em um contexto alternativo ao que é chamado de esoterismo ocidental. O significado de um termo como goēteia ou theourgia não reside em uma essência etérea e trans-histórica, mas nos jogos de linguagem concretos e nos projetos ético-filosóficos que o mobilizam em um dado contexto. O sentido que aqui nos interessa (e que orienta toda a nossa argumentação) é precisamente aquele forjado por Jâmblico, para que possamos caminhar a partir dele.
Ou seja, se o seu uso é diferente deste, estamos falando de coisas diferentes.
Eu acredito que a distinção forjada por Jâmblico possui uma validade filosófica e ética genuína, nos fornecendo um critério robusto para identificar e criticar práticas que se baseiam na coerção, na instrumentalização do sofrimento de terceiros ou de animais, e na ilusão de uma onipotência mágica centrada no ego do operador. A insistência de Jâmblico na centralidade da virtude e da orientação ética não é um acessório moralista que se pode descartar em nome de uma pretensa “eficácia” técnica do ritual. Ela é, antes, uma consequência necessária e orgânica de uma compreensão verdadeira da natureza do cosmos e do lugar do humano nele. Uma prática espiritual que não transforma eticamente o praticante, que não o torna mais justo, mais humilde e mais alinhado com o Bem, é, por esse mesmo fato, suspeita de ser uma prática espiritualmente doentia, desconectada das fontes genuínas do poder divino que diz buscar.
Contudo, como todo modelo teórico que busca impor ordem a uma realidade complexa, a distinção jambliqueana não está isenta de limitações e de zonas cinzentas. Uma lacuna em seu esquema é a ausência de uma categoria intermediária adequada para abrigar o vasto domínio do que poderíamos chamar de magia simpática ou natural. Existe todo um conjunto de práticas rituais, amplamente documentadas na Antiguidade, que não possuem as elevadas aspirações ontológicas e soteriológicas da teurgia em sentido pleno (não buscam a ascensão ao Fogo Inteligível) mas que tampouco exibem as características eticamente problemáticas que Jâmblico associa à goeteia.
Pense-se, por exemplo, em um simples rito de prosperidade, realizado com oferendas e preces humildes, que solicita o auxílio benigno dos deuses ou de daimones benevolentes para assegurar o sustento material e a saúde da família. Tal prática, tão comum na vida religiosa de todos os estratos sociais (sendo até um dos tipos de oração identificados por Proclo), não é teurgia no sentido técnico e elevado do termo, pois não visa primariamente a divinização da alma. Mas seria um equívoco grosseiro classificá-la como goeteia, visto que lhe falta a hybris, a vontade de poder egóica e a manipulação coercitiva que definem esta última. A ausência dessa categoria intermediária no esquema jambliqueano pode bem refletir um certo viés aristocrático de Jâmblico, um mestre de uma escola de elite dedicada à busca da eudaimonia pela união com o divino, provavelmente não precisava, nem lhe interessava, fazer “magia de prosperidade”. Seu foco estava inteiramente voltado para o cume da montanha sagrada.
Mas podemos também abordar a questão de uma outra forma que talvez nos permita matizar a aparente rigidez do esquema jambliqueano. Uma vida orientada aos Deuses, uma vida que se pretenda autenticamente teúrgica, não se compõe exclusivamente de ritos estritamente teúrgicos. A união com o divino permanece, inegociável e soberana, como o fim último para o qual todas as outras atividades devem convergir. Entre o ponto de partida da alma encarnada (sujeita às necessidades do corpo, às flutuações da fortuna e aos vínculos do destino) e o cume da montanha, estende-se um vasto território de existência que não pode ser simplesmente ignorado. Há finalidades secundárias, subordinadas, que precisam ser razoavelmente resolvidas para que a própria busca última possa ser efetivamente empreendida com a liberdade e a tranquilidade necessárias.
O cuidado com a saúde do corpo, a obtenção dos meios materiais para uma subsistência digna, a proteção contra perigos iminentes, a manutenção de relações sociais harmoniosas, todas essas coisas são bens instrumentais que podem facilitar (ou na sua ausência obstruir gravemente) o caminho ascensional da alma. O próprio Jâmblico, com sua característica atenção à totalidade da existência humana, reconhece que os Deuses, em sua providência, não se limitam a conceder apenas os dons inefáveis da contemplação noética. Ele fala explicitamente de almas elevadas (mortos), e até mesmo dos próprios Deuses, como agentes que nos trazem benesses de ordem material e auxílio nas necessidades cotidianas. O problema, portanto, não reside intrinsecamente na busca pelo bem-estar corporal ou pela segurança material, como se estas fossem, por si mesmas, máculas incompatíveis com a pureza teúrgica. A questão é de ordem hierárquica: o erro, a queda na goēteia ou em uma religiosidade meramente utilitária, consiste em tomar esses bens secundários como se fossem o fim último, em fixar o olhar exclusivamente nos dons e esquecer o Doador, em buscar a saúde do corpo sem jamais aspirar à cura da alma.
Continuamos aqui com nossa série de textos curtos e simples sobre minha visão de Teurgia contemporânea e de sua prática.
Bom, se praticamos algo, precisamos entender o que é esse algo, não podemos trabalhar no escuro. Então o que é essa tal de Teurgia? O problema com essa palavra é que ela chegou até nós carregando uma história semântica densa e nem sempre transparente, atravessando contextos tão distintos que o mesmo termo pode designar coisas radicalmente diferentes dependendo de quem o usa. Antes de dizer o que pratico, preciso dizer o que entendo por esse termo e por que entendo dessa forma e não de outra.
Como conceito técnico, podemos encontrar a origem da teurgia nos Oráculos Caldeus do século II d.C., tendo sua primeira elaboração filosófica rigorosa em Jâmblico. Mas o termo é apropriado posteriormente em outros contextos que não seu berço platonista pagão. Pseudo-Dionísio Areopagita apropria-se do vocabulário teúrgico para descrever a ação dos sacramentos. Em sua teologia, theourgia é a ação divina que se realiza através da liturgia. A estrutura filosófica é reconhecidamente neoplatônica, mas o conteúdo foi radicalmente transformado: os deuses foram reduzidos a anjos (categoria já existente entre os teurgistas pagãos) e substituídos por Cristo como mediador único, fazendo com que a pluralidade de presenças divinas que caracterizava o mundo mediterrâneo antigo fosse reduzida a uma única linha de mediação, eclesiologicamente controlada. Trata-se de algo que tecnicamente poderia se chamar de cristurgia e que, na minha opinião, pouco tem a ver com o que os platonistas pagãos entendiam pelo termo teurgia.
Outra abordagem pode ser vista na magia cerimonial ocidental: a Golden Dawn, no final do século XIX, recupera o vocabulário dos Oráculos Caldeus e do neoplatonismo tardio, mas dentro de um quadro filosófico profundamente diferente, no qual as antigas presenças divinas são interpretadas como “forças cegas”. O que interessa à tradição cerimonial na teurgia são principalmente suas técnicas (os ritos de invocação, os símbolos, as correspondências cósmicas), deslocadas do contexto devocional original. Magistas como Crowley elevam explicitamente a vontade do mago à posição de princípio soberano: se os antigos diziam que os Deuses são a medida de todas as coisas, Crowley diz “não existe Deus além do Homem”. São posições opostas usando, às vezes, o mesmo vocabulário, o que torna a confusão entre elas não apenas possível, mas frequente. Aliás, ciscando perigosamente em terreno que não é meu, o Liber Al Legis parece ter um potencial teúrgico que foi invisível ao seu próprio profeta.
A palavra theourgia (θεουργία) é um composto de theós (θεός, deus, divino) e érgon (ἔργον, trabalho, prática, atividade). A tradução mais imediata seria “trabalho divino” ou “obra divina”. Mas essa tradução já carrega uma ambiguidade: quem é o sujeito dessa operação? Para quem está acostumado com as correntes do esoterismo moderno supracitadas, a resposta parece óbvia: é o praticante quem trabalha; os Deuses são os destinatários ou, em casos mais graves, os instrumentos da operação. Essa resposta é precisamente a antítese daquela na qual busco me firmar.
Jâmblico, em De Mysteriis, deixa muito claro que os verdadeiros agentes da operação teúrgica são os Deuses. O teurgo não “trabalha com os Deuses” como um artesão trabalha com seus materiais; antes, os deuses trabalham através do teurgo, que se torna veículo de uma ação divina que o ultrapassa. Não é o praticante quem conduz, mas ele é conduzido, tal como o camponês que não faz o Sol nascer, mas orienta seu trabalho por ele. Dessa perspectiva, a prática teúrgica é menos uma técnica de domínio e mais uma disciplina de abertura e receptividade ao divino.
Essa inversão é importante para que eu possa distinguir o modo como vejo a teurgia de outras perspectivas, e é por isso que ela precisa vir antes de qualquer discussão sobre técnicas ou práticas específicas. Se os Deuses são os verdadeiros agentes, então a capacidade teúrgica é uma dádiva, e, como tal, ela implica uma relação, não uma posse. O teurgo não é um mago soberano que domina forças cósmicas, um tecnólogo do sagrado, uma noção que vamos encontrar em figuras muito diferentes dentro da tradição esotérica ocidental, como um Evola ou um DuQuette. A distinção entre o esotericista e o religioso (ou ainda entre religião e metafísica, no sentido guenoniano) seria estranha a pensadores como Jâmblico.
Diferentes pessoas chegam à teurgia por caminhos distintos e tomam coisas diferentes como centrais. Minha postura aqui não é de um ataque ao esoterismo ocidental, mas de diferenciação; é natural que pessoas que estão vindo de lugares diferentes e que estão procurando coisas diferentes terão recepções diversas dos antigos. Esotericistas ocidentais podem se beneficiar de uma ontologia dos símbolos mais robusta que os modelos psicologizantes, mas provavelmente terão críticas à oposição de Jâmblico em relação à magia coercitiva, ou mesmo ao seu politeísmo. Feiticeiros de diversas vertentes irão encontrar uma fenomenologia completa da pluralidade de entidades que povoam as realidades sutis, mas provavelmente terão críticas à distinção jambliquiana entre teurgia e goeteia. A minha entrada é a de um politeísmo devocional, e isso determina o que consideramos importante no nosso diálogo crítico com os antigos.
Não estou dizendo que nada pode ser aprendido com as tradições que transformaram o sentido do termo “teurgia” ao longo do tempo, e nem com outras formas de entender esse termo. Estou dizendo que sabemos de onde estamos falando. A nossa leitura de teurgia não passa pela visão da Golden Dawn nem por Pseudo-Dionísio; e, se dialoga com o campo acadêmico, é para extrair dele o que serve a uma prática honesta, não para substituir a prática pela teoria. E repito: podemos sempre aprender com o outro, pois a clareza de nossas discordâncias não nos torna inimigos naturais. Particularmente, acho o sistema da Golden Dawn munido de uma criatividade simbólica e sistemática majestosa, e busco incorporar algo desse espírito em meus próprios sistemas.
O que me interessa em Jâmblico não é primariamente a teurgia como uma técnica de ascensão para iniciados em um culto iniciático já estabelecido, mas como uma forma de se relacionar profunda e responsavelmente com os Deuses no percurso de uma vida virtuosa e a eles orientada. Dele, criticamente, me afasto em pontos como sua teoria da linguagem, vejo nele a falta de uma categoria de prática hierática que não seja nem teurgia nem goeteia (aqui talvez dialogando produtivamente com os esotericistas através do conceito de magia natural), e ainda outras questões que posso abordar mais tarde. Nada de incomum para quem sabe que a discordância livre e aberta existia mesmo entre os antigos; porém, é importante ter clareza do que e por quê discordamos. Por isso não posso simplesmente jogar pedra nos esotéricos, só dizer que concordamos e discordamos de Jâmblico em lugares diferentes, e que essa diferença é importante para mim.
Com isso, posso oferecer a definição com a qual trabalho ao longo desta série: teurgia é uma forma de prática sagrada por meio da qual o praticante é elevado, através do uso de símbolos e ritos nos quais os próprios Deuses estão presentes, uma participação efetiva na atividade divina, um operar com eles. Os ritos não aludem aos Deuses nem os representam; os Deuses e Daimones estão realmente presentes nos ritos, não “simbolicamente” em um sentido moderno. Essa presença real é o fundamento de toda a eficácia teúrgica e aquilo que distingue essa prática de outras formas de esoterismo que mantêm apenas uma relação representacional com o sagrado.
Para uma Hierática dos pequenos iniciados e dos camponeses do espírito
Pieter Bruegel, Dança de Casamento
O único tipo de prática espiritual que posso ensinar a alguém é aquela que pratico, e por isso preciso falar um pouco de mim antes de falar do que proponho. Sou um homem comum e não há nada de excepcional em mim: não sou um grande iniciado, não tenho superpoderes, não fui educado ( ao menos explicitamente) por daimones na infância, e minhas experiências religiosas são as de um homem religioso típico, soando como fantásticas somente para aqueles que não têm contato com este mundo. Sim, minha vida é permeada por Deuses e Daimones, mas para mim essa é simplesmente a experiência de alguém que está disposto a reconhecer a presença deles e com eles se relacionar. Estou nesse caminho desde meados de 2014, e o que há de mais importante de lá para cá não são os efeitos especiais, eles existem, mas o essencial foi eu ter me tornado uma pessoa melhor. Sim, é isso: algo que pode soar profundamente naïve para muitos, mas se há algo que este caminho me trouxe foi Felicidade, no sentido eudaimônico de uma vida mais plena e mais virtuosa, mais próxima dos Deuses e, portanto, mais próxima do que há de mais elevado em mim.
Não há nada de mais relevante para dizer sobre mim, e isso é precisamente o centro deste texto. O tipo de Teurgia que ensino é informada por filósofos-hierofantes que não só viviam em um mundo diferente, mas também viviam de forma diferente daquela em que eu vivo. Não sou um aristocrata nem de posses, nem de sangue, nem de espírito. Talvez eu seja um camponês do espírito, e por isso o modo como penso e pratico a Arte Hierática, mesmo que informado pelos antigos, será necessariamente diferente deles. Partir dessa diferença consciente, desses pés-no-chão, permitiu-me construir uma espiritualidade que considero honesta na medida em que não busca falsificar a medida dos seus passos e também não cair nas muitas arapucas montadas pelos próprios antigos. O camponês do espírito não é aquele que ignora a tradição, mas aquele que a recebe com as mãos sujas de terra, isto é, a partir de uma experiência vivida, lendo os antigos com gratidão e com distância crítica, como quem recebe conselhos de um parente distante e sábio que, no entanto, é muito distinto de si mesmo.
Há uma liberdade específica que nasce da ausência de pretensão: quando não nos apresentamos como mais do que somos, tornamo-nos mais difíceis de enganar e mais aptos a enxergar o que de fato está diante de nós. O camponês do espírito não precisa proteger uma reputação iniciática, não precisa defender uma linhagem, não precisa sustentar uma imagem de elevação espiritual perante uma comunidade de discípulos. Ele pode, simplesmente, dizer o que vê. E essa liberdade, tão barata em aparência, é extraordinariamente rara nos círculos espirituais hoje em dia.
Um homem comum não pode ter o luxo de se perder em fantasias e auto-enganos, pois tem sempre muito a perder. Pequenos prejuízos sempre poderão ser contornados por aqueles que têm tempo e recursos para tanto, enquanto para nós não há prejuízo que seja pequeno. A história dos movimentos espirituais é, em grande parte, uma história de pessoas comuns que confiaram demais em figuras que prometiam demais. O discernimento não é uma falta de fé, mas o que permite que a fé sobreviva ao contato com a realidade. Precisamos saber com quem e com o quê estamos lidando e, ainda, precisamos conhecer os limites e as condições pelas quais esse saber se estabelece. O idealismo solipsista e o realismo ingênuo são dois extremos que só podem ser atraentes para aqueles que têm muito tempo a perder, e é por isso que meu politeísmo e minha espiritualidade são Críticos. Foi o “medo de água fria” que me levou a adotar tal epistemologia e, claro, também sua cogência e poder explicativo.
Quem procura soteriologias geralmente quer apenas se apegar a uma delas e desfrutar de sua promessa. Não é o nosso caso — ainda mais quando muitos de nós estamos nesse caminho precisamente porque fomos salvos de alguma soteriologia. Não temos recursos suficientes para sermos ingênuos, e não há nada de errado em ter a cautela necessária para não sermos enganados por estelionatários espirituais, sejam humanos ou não. É por isso que ensino somente o caminho das pedras, presumindo que meus leitores sejam adultos e responsáveis no seu contato com os Deuses, e que não precisem da minha tutela. Estou falando para pessoas adultas, que tenham consciência do peso e da responsabilidade que esta condição lhes confere, o homem comum não pode brincar de puer aeternus.
Permanecer eternamente jovem, eterno buscador, eterno iniciante que nunca precisa prestar contas do que aprendeu exige uma rede de sustentação que a maioria das pessoas simplesmente não tem. O homem comum tem filhos para criar, contas a pagar, obrigações que não esperam sua iluminação. E é essa pressão da vida concreta que pode se tornar, se bem aproveitada, um dos seus maiores instrumentos espirituais, a maturidade.
Não posso prometer mais do que posso entregar, e o que tenho para compartilhar é precisamente este caminho, ainda em construção, que me trouxe até aqui. Quero proporcionar a outros homens comuns a indicação de veredas pelas quais possam se relacionar com os Deuses e aprofundar tal relação no percurso de uma boa vida, de uma vida teofanicamente rica e plena. Um caminho trilhado com cuidado, mas também com criatividade e visão de futuro, onde possamos elaborar novos modos de vida e novas formas de nos relacionarmos com os Deuses, dialogando criticamente com os antigos e acolhendo de forma responsável a voz dos Deuses e Daimones que se revelam no decorrer de nosso amadurecimento espiritual.
Uma vida teofanicamente rica não é necessariamente uma vida de visões e revelações dramáticas, também o é, mas é fundamentalmente uma vida em que os Deuses encontram lugar no ritmo das estações, no cuidado com os mortos, na atenção à mesa posta, na forma como se recebe um hóspede ou se atravessa uma crise. Nós, os camponeses do espírito, não esperamos o momento sublime para se relacionar com o sagrado, cultivamos esse relacionamento nos gestos menores, sabendo que é na regularidade da prática, e não na intensidade dos picos, que uma vida espiritual real se constroi.
Esse tipo de Teurgia que proponho está articulada a um contexto mais amplo que chamo de Politeísmo Eosíaco: um nome para uma espiritualidade pagã contemporânea que busca um caminho alternativo ao reconstrucionismo, ao paganismo esotérico (e à Tradição Esotérica Ocidental como um todo), aos revivalismos e aos paganismos etnocentrados. Por isso não seria um problema assumir “Teurgia Eosíaca” como nome para a Teurgia do homem comum que aqui proponho, já que o politeísmo eosíaco é fundamentalmente um politeísmo do homem comum. É uma espiritualidade que não tem genealogias nobres nem iniciações secretas para se legitimar, mas se fundamenta naquilo que produz na vida concreta de quem a pratica.
Aurora é a luz que permite ver o contorno das coisas antes que elas sejam engolidas pelo brilho. Há algo adequado nessa imagem para uma espiritualidade que se propõe humilde e acordada: não a revelação total, não o sistema completo, mas o suficiente para caminhar com os olhos abertos. O camponês do espírito é, nesse sentido, um filho da aurora, alguém que aprendeu a trabalhar com o que a luz nascente oferece, sem esperar que o dia seja pleno para começar.
Mas, antes de qualquer coisa, o que entendo por Teurgia? Antes de tudo, precisamos tentar compreender o que este termo significava ontem e o que significa hoje, para então discernir com precisão do que estamos falando. E isso será abordado no próximo texto.
O Seminário Permanente de Teurgia (SPT) terá no dia 11 de fevereiro o início do seu primeiro ciclo de 2026. Iremos discutir a obra “Divination and Theurgy in Neoplatonism” de Crystal Addey em seis encontros de frequência quinzenal de duração média de 1:30h às quartas-feiras, no horário de 19:00-21:00 nos dias 11/02, 25/02, 11/03, 25/03, 08/04 e 22/04.
As aulas serão realizadas por videoconferência no GOOGLE MEET e também disponibilizadas para que os alunos possam assistir mais tarde de forma assíncrona.
Nossas aulas são baseadas na literatura acadêmica atual sobre Teurgia, Neoplatonismo, se fundamentando em uma abordagem crítica e com foco no praticante.
O espaço não é simplesmente o “lugar” onde uma experiência religiosa ocorre, mas um elemento constitutivo e ativo da mesma. Na realidade, um lugar não é simplesmente um lugar, mas uma situação, um conjunto de disposições que tornam possíveis as coisas que nele se situam. Mesmo as coisas que soam dessituadas, só são relativamente dissonantes frente ao local no qual se originam, do contrário, elas nem mesmo lá existiriam.
O local também pode ser lido de forma viciosa, e disso se desdobram os diversos ufanismos, formas de pensamento xenófobo e particularismos extremistas. O vício do localismo surge quando o particular se absolutiza, perdendo sua transparência ao universal; inversamente, o universalismo abstrato falha ao descarnar-se de sua materialidade situacional.
Porém, há um potencial Universal no local. O crítico literário Antônio Cândido viu na obra de Guimarães Rosa essa possibilidade, a chamando de surregionalismo: o movimento pelo qual o mais profundamente local revela-se como o mais genuinamente universal, não por abandonar suas particularidades, mas por aprofundar-se nelas até encontrar aquilo que as fundamenta.
É necessária uma teologia que também se diga surregionalista, vendo a revelação do lugar como a expressão universal dos Deuses. Em outros textos (como em “Como se tornar um Demiurgo”) falei da necessidade de se pensar um mundo onde muitos mundos possam caber, e aqui reformulo essa necessidade em outra clave: pensar em uma teologia onde o regional não seja suprassumido pelo Universal, mas que seja reconhecido como meio inescapável pelo qual essa universalidade se faz propriamente acessível. Nenhum lugar pode reivindicar exclusividade sobre o divino, ao mesmo tempo que o divino jamais se apresenta de forma “pura”, desligada das mediações concretas que constituem nossa experiência mundana. A universalidade dos Deuses não se manifesta apesar das particularidades locais, mas precisamente através delas, condições providenciais de sua própria revelação. Não há cidade mais sagrada que a nossa, ao mesmo tempo que toda cidade é igualmente sagrada.
Chamo de Topofania o modo como os Deuses se fazem presentes na interação complexa entre geografia física, cultura local e história regional, gerando formas únicas de expressão religiosa que respondem organicamente às especificidades de cada localidade. Honrar o lugar é poder reconhecer a presença Universal dos Deuses nessa configuração regionalmente situada, é ouvir o sotaque que cada Deus adquire ao se expressar através dos meios pelos quais eles se tornam presentes aonde vivemos e estamos. Os Deuses não habitam um “além” separado do mundo, mas se manifestam na própria textura das coisas. O “sotaque” divino não é uma distorção de uma verdade primordial, mas a própria modalidade através da qual essa verdade se torna acessível e vivível.
Do ponto de vista histórico, é inegável que práticas rituais, expressões devocionais e mesmo as interpretações teológicas desenvolvem-se em diálogo constante com o ambiente natural e cultural circundante. O calendário litúrgico, por exemplo, emerge da interseção entre os ciclos naturais locais e as camadas históricas de significado acumuladas no território, criando uma temporalidade sagrada que é simultaneamente universal e profundamente local. A fauna e a flora (e seus guardiões invisíveis) tecem teias de sunthemata, a partir do qual a luz dos Deuses pode se tornar inteligível a partir da coloração específica de sua mediação.
Os sunthemata, os meios através dos quais o divino se torna legível e acessível, não são convenções puramente arbitrárias impostas sobre uma natureza muda, mas brotam da própria capacidade expressiva do mundo. Se os modelamos, o fazemos a partir do barro que está abaixo de nós, não há construção “pura”, tudo que moldamos está disponível para ser moldado (e também por isso a tecnofania não deve ser tratada como demoníaca a priori, mas julgada de acordo com sua capacidade de proporcionar eudaimonia).
A religião pode nos elevar para acima da corporalidade, mas ela age e se expressa como experiência corporificada, e é uma ilusão pensar que tal corpo se restringe ao nosso limite dérmico. Não pensamos e vivemos no mundo, mas pensamos e vivemos com o mundo (e através dele). Rezamos com os pulmões que respiram o ar comum, com os pés que tocam, com os ouvidos que escutam os sons da floresta ou da cidade. A sensação de unidade que caracteriza certas experiências espirituais não é a aniquilação das diferenças, mas o reconhecimento de que estas diferenças são modulações de uma mesma vida que nos atravessa e nos constitui.
Com isso não quero levantar só uma teoria sobre a manifestação dos Deuses nos lugares, mas também propor uma prática de atenção à presença divina que já sempre nos circunda e nos habita. É aprender a ler as escrituras que a própria terra inscreveu em suas paisagens, reconhecendo em cada configuração geográfica uma modalidade específica da revelação divina. Para nós politeístas contemporâneos, não há diferença entre o “Pequeno Corão” e o “Grande Corão”.
Mas aceitar isto tem suas consequências. Receberemos com alegria os novos modos pelos quais os Deuses podem nos revelar? Estamos preparados para expressar novos mitos e elaborar novos ritos que honrem o sotaque dos Deuses? Estamos abertos para os novos nomes com os quais eles podem se revelar?
No vôo do Guará surge um Hermes Solar, nas penas do Urubu-rei se manifesta um Saturno jovial. Eles esperam para receber o culto adequado. Novos cânones são necessários para que novos mundos possam se expressar.