Teurgia do Homem Comum (3)

Vamos partir de onde terminamos: no último texto disse que a capacidade teúrgica não é simplesmente uma aquisição pessoal, fruto de uma perícia técnica acumulada ou de um poder inato que o indivíduo desenvolve por mérito próprio. Ela é, em sua essência, uma dádiva divina. A operação ritual, mesmo quando executada com precisão  e conhecimento profundo da hieratikē technē, ocorre em última e decisiva instância, “pela vontade dos Deuses”. É sempre bom bater nesta tecla: o verdadeiro agente da teurgia é sempre o divino,  o teurgo humano é o instrumento, o médium, a articulação de seu poder. Sua agência não é anulada, mas é radicalmente reposicionada, se tornando um espaço de acolhimento cada vez mais puro  para que a ação divina possa fluir através dele sem obstrução, distorção ou desvio. O teurgo não é um mago soberano que comanda as potências cósmicas, ele é aquele que se oferece humildemente como veículo para a manifestação da providência e do amor divinos no mundo, e somente depois disso e não antes, reconhece através desse ato de humildade a identidade profunda entre o Deus e si mesmo, ou seja, o Teurgo se torna somente o “verdadeiro sujeito” quando ele se reconhece no verdadeiro sujeito que é o Deus.

Esta demarcação do lugar do humano na economia da graça teúrgica é o que permite a Jâmblico estabelecer uma distinção normativa de profunda significância filosófica e ética: a oposição entre teurgia  e goeteia.  Para compreender essa distinção, é necessário reconhecer a fluidez semântica e prática que caracterizava o campo das artes rituais antes de sua sistematização. O termo goēteia possuía uma história própria, frequentemente carregada de conotações pejorativas. Em muitos contextos, era utilizado como um sinônimo difamatório de mageía, a arte dos magos, embora mageía também pudesse reter um uso técnico respeitoso, especialmente quando referida à arte sacerdotal dos magoi persas, os sacerdotes zoroastristas. Em outras ocorrências, goēteia designava mais especificamente um conjunto de práticas associadas ao universo ctônico: ritos funerários, necromancia e a evocação das almas dos mortos.

No período anterior a Jâmblico, não encontramos uma oposição sistemática e filosoficamente fundamentada entre “teurgia” e “goeteia” como categorias mutuamente exclusivas e eticamente opostas. Os chamados Papiros Mágicos Gregos (PGM), um vasto e heterogêneo *corpus* de textos rituais do Egito greco-romano, documentam um contínuo de práticas que não se enquadram plenamente na cisão feita por Jâmblico. Neles, coexistem procedimentos que um platônico tardio reconheceria, por seu conteúdo e intenção, como afinados com os princípios teúrgicos  (invocações a divindades  em linguagem de súplica e assimilação, busca por visões divinas e autoconhecimento) lado a lado com práticas que seriam inequivocamente classificadas como goeteicas (fórmulas de coerção, ameaças a divindades, manipulação de daimones para fins mundanos e, por vezes, malévolos). Não há nesse rico e complexo corpus uma fronteira clara ou estável que separe os dois domínios. A distinção normativa que Jâmblico é uma cisão de um continuum, impondo uma ordem a essa paisagem ritual mais ambígua e indiferenciada.

O que fundamenta a distinção jambliqueana entre teurgia e goeteia não é primariamente o tipo de entidade invocada nem se esgota no tipo de ritual empregado, embora, naturalmente, existam práticas cuja própria natureza as vincularia inexoravelmente à goeteia. O fundamento da distinção é de ordem ética e, mais profundamente, ontológica, e diz respeito à posição que o operador humano assume em relação às potências com as quais trabalha. Como já dissemos, no horizonte da teurgia as capacidades manifestadas pelo praticante são reconhecidas  como dádivas divinas, sua orientação é radicalmente teocêntrica: o divino constitui simultaneamente a fonte, o meio e a finalidade última da ação sagrada. Essa postura implica uma humildade ontológica perante as hierarquias cósmicas onde o teurgo conhece seu lugar na vasta escala do ser, que se estende dos confins da matéria até os Deuses mais elevados, e age em estrita conformidade com essa ordem, e por isso essa prática é indissociável de uma vida hierática e moralmente comprometida, fundada na philia e na pronoia divinas; a teurgia não é uma técnica que se possa isolar do caráter e da conduta cotidiana do praticante, mas exige dele uma progressiva assimilação às virtudes que são o reflexo do Bem no mundo.

Jâmblico irá definir a goeteia como partindo de um conjunto de pressupostos éticos e ontológicos diametralmente opostos. Onde o teurgo busca esvaziar-se daquilo que em si é inessencial para dar lugar ao divino, o goēs afirma seu próprio ego e instrumentaliza as potências invocadas, tratando-as como meios para a realização de desejos frequentemente mundanos. Sua orientação é antropocêntrica: o desejo e a vontade do operador humano são o verdadeiro motor e a finalidade da prática, podendo haver um desrespeito deliberado pela ordem do cosmos, resultando em tentativas de subverter ou forçar essa mesma ordem em benefício próprio. O goēs não se vê como um instrumento dos Deuses, mas como um agente que se crê soberano, capaz de compelir entidades divinas ou semi-divinas a servi-lo. A prática goeteica é vista por Jâmblico como essencialmente independente de qualquer comprometimento ético-espiritual do operador: a técnica, a fórmula e o rito bastam a si mesmos, sem que se exija do praticante uma transformação interior ou uma vida moralmente orientada.

A diferença não reside primariamente no nome ou na natureza das entidades invocadas, mas na atitude fundamental do coração e da inteligência do praticante perante a ordem sagrada do universo. É importante também aqui evitar uma confusão terminológica frequente, especialmente entre leitores familiarizados com as tradições da magia cerimonial ocidental. A distinção jambliqueana entre teurgia e goeteia não é de modo algum equivalente à distinção que encontramos no esoterismo ocidental, que opõe a teurgia (como trabalho com entidades angélicas) à goécia (como trabalho com espíritos ditos “demoníacos”). Esta última é uma distinção baseada primariamente no tipo de entidade invocada. A distinção jambliqueana, como vimos, é baseada em uma atitude ética e em uma compreensão ontológica. É perfeitamente concebível, dentro do quadro jambliqueano, que um operador trabalhe com entidades da mais alta hierarquia celeste de uma forma que seria rigorosamente classificada como goeteica (se, por exemplo, ele se aproximar de um arcanjo com a presunção de comandá-lo ou forçá-lo a servi-lo como um instrumento de sua vontade soberana),  inversamente, é absolutamente possível trabalhar com entidades do mundo ctônico de uma forma alinhada com o espírito teúrgico,  se tal trabalho fosse realizado em uma postura de serviço aos Deuses e reconhecimento do lugar dessas entidades na vasta e ordenada hierarquia do cosmos divino.

Convém também esclarecer que o uso de “goeteia” neste texto não se alinha com certas tentativas contemporâneas de reconstruir uma suposta “goécia universal”,  uma espécie de ur-necro-religião primordial subterrânea e transcultural, cujos vestígios teriam sobrevivido em grimórios medievais e papiros mágicos da Antiguidade, tal como imaginada por autores como Jake Stratton-Kent. Por mais fascinante que seja como especulação mitopoética ou como bricolagem simbólica para fins operativos modernos, tal empreendimento opera sob uma lógica historiográfica radicalmente distinta daquela que aqui adotamos. Nosso compromisso não é com a construção de uma tradição oculta unificada e atemporal, mas com a elucidação de um momento específico e decisivo na história das ideias (a cisão conceitual operada por Jâmblico no seio do platonismo tardo-antigo) e o significado dessa distinção para pessoas como eu, que buscam esse caminho de prática religiosa em um contexto alternativo ao que é chamado de esoterismo ocidental.  O significado de um termo como goēteia ou theourgia não reside em uma essência etérea e trans-histórica, mas nos jogos de linguagem concretos e nos projetos ético-filosóficos que o mobilizam em um dado contexto. O sentido que aqui nos interessa (e que orienta toda a nossa argumentação) é precisamente aquele forjado por Jâmblico, para que possamos caminhar a partir dele.

Ou seja, se o seu uso é diferente deste, estamos falando de coisas diferentes.

Eu acredito que a distinção forjada por Jâmblico possui uma validade filosófica e ética genuína, nos fornecendo um critério robusto para identificar e criticar práticas que se baseiam na coerção, na instrumentalização do sofrimento de terceiros ou de animais, e na ilusão de uma onipotência mágica centrada no ego do operador. A insistência de Jâmblico na centralidade da virtude e da orientação ética não é um acessório moralista que se pode descartar em nome de uma pretensa “eficácia” técnica do ritual. Ela é, antes, uma consequência necessária e orgânica de uma compreensão verdadeira da natureza do cosmos e do lugar do humano nele. Uma prática espiritual que não transforma eticamente o praticante, que não o torna mais justo, mais humilde e mais alinhado com o Bem, é, por esse mesmo fato, suspeita de ser uma prática espiritualmente doentia, desconectada das fontes genuínas do poder divino que diz buscar.

Contudo, como todo modelo teórico que busca impor ordem a uma realidade complexa, a distinção jambliqueana não está isenta de limitações e de zonas cinzentas. Uma lacuna em seu esquema é a ausência de uma categoria intermediária adequada para abrigar o vasto domínio do que poderíamos chamar de magia simpática ou natural. Existe todo um conjunto de práticas rituais, amplamente documentadas na Antiguidade, que não possuem as elevadas aspirações ontológicas e soteriológicas da teurgia em sentido pleno (não buscam a ascensão ao Fogo Inteligível) mas que tampouco exibem as características eticamente problemáticas que Jâmblico associa à goeteia.

Pense-se, por exemplo, em um simples rito de prosperidade, realizado com oferendas e preces humildes, que solicita o auxílio benigno dos deuses ou de daimones benevolentes para assegurar o sustento material e a saúde da família. Tal prática, tão comum na vida religiosa de todos os estratos sociais (sendo até um dos tipos de oração identificados por Proclo), não é teurgia no sentido técnico e elevado do termo, pois não visa primariamente a divinização da alma. Mas seria um equívoco grosseiro classificá-la como goeteia, visto que lhe falta a hybris, a vontade de poder egóica e a manipulação coercitiva que definem esta última. A ausência dessa categoria intermediária no esquema jambliqueano pode bem refletir um certo viés aristocrático de Jâmblico, um mestre de uma escola de elite dedicada à busca da eudaimonia pela união com o divino, provavelmente não precisava, nem lhe interessava, fazer “magia de prosperidade”. Seu foco estava inteiramente voltado para o cume da montanha sagrada.


Mas podemos também abordar a questão de uma outra forma que talvez nos permita matizar a aparente rigidez do esquema jambliqueano. Uma vida orientada aos Deuses, uma vida que se pretenda autenticamente teúrgica, não se compõe exclusivamente de ritos estritamente teúrgicos. A união com o divino permanece, inegociável e soberana, como o fim último para o qual todas as outras atividades devem convergir. Entre o ponto de partida da alma encarnada (sujeita às necessidades do corpo, às flutuações da fortuna e aos vínculos do destino)  e o cume da montanha, estende-se um vasto território de existência que não pode ser simplesmente ignorado. Há finalidades secundárias, subordinadas, que precisam ser razoavelmente resolvidas para que a própria busca última possa ser efetivamente empreendida com a liberdade e a tranquilidade necessárias.

O cuidado com a saúde do corpo, a obtenção dos meios materiais para uma subsistência digna, a proteção contra perigos iminentes, a manutenção de relações sociais harmoniosas,  todas essas coisas  são  bens instrumentais que podem facilitar (ou na sua ausência obstruir gravemente) o caminho ascensional da alma. O próprio Jâmblico, com sua característica atenção à totalidade da existência humana, reconhece que os Deuses, em sua providência, não se limitam a conceder apenas os dons inefáveis da contemplação noética. Ele fala explicitamente de almas elevadas (mortos), e até mesmo dos próprios Deuses, como agentes que nos trazem benesses de ordem material e auxílio nas necessidades cotidianas. O problema, portanto, não reside intrinsecamente na busca pelo bem-estar corporal ou pela segurança material, como se estas fossem, por si mesmas, máculas incompatíveis com a pureza teúrgica. A questão é de ordem hierárquica: o erro, a queda na goēteia ou em uma religiosidade meramente utilitária, consiste em tomar esses bens secundários como se fossem o fim último, em fixar o olhar exclusivamente nos dons e esquecer o Doador, em buscar a saúde do corpo sem jamais aspirar à cura da alma. 

Teurgia do Homem Comum (2)

Fazenda na Normandia de Paul Cézanne, 

Continuamos aqui com nossa série de textos curtos e simples sobre minha visão de Teurgia contemporânea e de sua prática.

Bom, se praticamos algo, precisamos entender o que é esse algo, não podemos trabalhar no escuro. Então o que é essa tal de Teurgia? O problema com essa palavra é que ela chegou até nós carregando uma história semântica densa e nem sempre transparente, atravessando contextos tão distintos que o mesmo termo pode designar coisas radicalmente diferentes dependendo de quem o usa. Antes de dizer o que pratico, preciso dizer o que entendo por esse termo e por que entendo dessa forma e não de outra.

Como conceito técnico, podemos encontrar a origem da teurgia nos Oráculos Caldeus do século II d.C., tendo sua primeira elaboração filosófica rigorosa em Jâmblico. Mas o termo é apropriado posteriormente em outros contextos que não seu berço platonista pagão. Pseudo-Dionísio Areopagita apropria-se do vocabulário teúrgico para descrever a ação dos sacramentos. Em sua teologia, theourgia é a ação divina que se realiza através da liturgia. A estrutura filosófica é reconhecidamente neoplatônica, mas o conteúdo foi radicalmente transformado: os deuses foram reduzidos a anjos (categoria já existente entre os teurgistas pagãos) e substituídos por Cristo como mediador único, fazendo com que a pluralidade de presenças divinas que caracterizava o mundo mediterrâneo antigo fosse reduzida a uma única linha de mediação, eclesiologicamente controlada. Trata-se de algo que tecnicamente poderia se chamar de cristurgia e que, na minha opinião, pouco tem a ver com o que os platonistas pagãos entendiam pelo termo teurgia.

Outra abordagem pode ser vista na magia cerimonial ocidental: a Golden Dawn, no final do século XIX, recupera o vocabulário dos Oráculos Caldeus e do neoplatonismo tardio, mas dentro de um quadro filosófico profundamente diferente, no qual as antigas presenças divinas são interpretadas como “forças cegas”. O que interessa à tradição cerimonial na teurgia são principalmente suas técnicas (os ritos de invocação, os símbolos, as correspondências cósmicas), deslocadas do contexto devocional original. Magistas como Crowley elevam explicitamente a vontade do mago à posição de princípio soberano: se os antigos diziam que os Deuses são a medida de todas as coisas, Crowley diz “não existe Deus além do Homem”. São posições opostas usando, às vezes, o mesmo vocabulário, o que torna a confusão entre elas não apenas possível, mas frequente. Aliás, ciscando perigosamente em terreno que não é meu, o Liber Al Legis parece ter um potencial teúrgico que foi invisível ao seu próprio profeta.

A palavra theourgia (θεουργία) é um composto de theós (θεός, deus, divino) e érgon (ἔργον, trabalho, prática, atividade). A tradução mais imediata seria “trabalho divino” ou “obra divina”. Mas essa tradução já carrega uma ambiguidade: quem é o sujeito dessa operação? Para quem está acostumado com as correntes do esoterismo moderno supracitadas, a resposta parece óbvia: é o praticante quem trabalha; os Deuses são os destinatários ou, em casos mais graves, os instrumentos da operação. Essa resposta é precisamente a antítese daquela na qual busco me firmar.

Jâmblico, em De Mysteriis, deixa muito claro que os verdadeiros agentes da operação teúrgica são os Deuses. O teurgo não “trabalha com os Deuses” como um artesão trabalha com seus materiais; antes, os deuses trabalham através do teurgo, que se torna veículo de uma ação divina que o ultrapassa. Não é o praticante quem conduz, mas ele é conduzido, tal como o camponês que não faz o Sol nascer, mas orienta seu trabalho por ele. Dessa perspectiva, a prática teúrgica é menos uma técnica de domínio e mais uma disciplina de abertura e receptividade ao divino.

Essa inversão é importante para que eu possa distinguir o modo como vejo a teurgia de outras perspectivas, e é por isso que ela precisa vir antes de qualquer discussão sobre técnicas ou práticas específicas. Se os Deuses são os verdadeiros agentes, então a capacidade teúrgica é uma dádiva, e, como tal, ela implica uma relação, não uma posse. O teurgo não é um mago soberano que domina forças cósmicas, um tecnólogo do sagrado,  uma noção que vamos encontrar em figuras muito diferentes dentro da tradição esotérica ocidental, como um Evola ou um DuQuette. A distinção entre o esotericista e o religioso (ou ainda entre religião e metafísica, no sentido guenoniano) seria estranha a pensadores como Jâmblico.

Diferentes pessoas chegam à teurgia por caminhos distintos e tomam coisas diferentes como centrais. Minha postura aqui não é de um ataque ao esoterismo ocidental, mas de diferenciação; é natural que pessoas que estão vindo de lugares diferentes e que estão procurando coisas diferentes terão recepções diversas dos antigos. Esotericistas ocidentais podem se beneficiar de uma ontologia dos símbolos mais robusta que os modelos psicologizantes, mas provavelmente terão críticas à oposição de Jâmblico em relação à magia coercitiva, ou mesmo ao seu politeísmo. Feiticeiros de diversas vertentes irão encontrar uma fenomenologia completa da pluralidade de entidades que povoam as realidades sutis, mas provavelmente terão críticas à distinção jambliquiana entre teurgia e goeteia. A minha entrada é a de um politeísmo devocional, e isso determina o que consideramos importante no nosso diálogo crítico com os antigos.

Não estou dizendo que nada pode ser aprendido com as tradições que transformaram o sentido do termo “teurgia” ao longo do tempo, e nem com outras formas de entender esse termo. Estou dizendo que sabemos de onde estamos falando. A nossa leitura de teurgia não passa pela visão da Golden Dawn nem por Pseudo-Dionísio; e, se dialoga com o campo acadêmico, é para extrair dele o que serve a uma prática honesta, não para substituir a prática pela teoria. E repito: podemos sempre aprender com o outro, pois a clareza de nossas discordâncias não nos torna inimigos naturais. Particularmente, acho o sistema da Golden Dawn munido de uma criatividade simbólica e sistemática majestosa, e busco incorporar algo desse espírito em meus próprios sistemas.

O que me interessa em Jâmblico não é primariamente a teurgia como uma técnica de ascensão para iniciados em um culto iniciático já estabelecido, mas como uma forma de se relacionar profunda e responsavelmente com os Deuses no percurso de uma vida virtuosa e a eles orientada. Dele, criticamente, me afasto em pontos como sua teoria da linguagem, vejo nele a falta de uma categoria de prática hierática que não seja nem teurgia nem goeteia (aqui talvez dialogando produtivamente com os esotericistas através do conceito de magia natural), e ainda outras questões que posso abordar mais tarde. Nada de incomum para quem sabe que a discordância livre e aberta existia mesmo entre os antigos; porém, é importante ter clareza do que e por quê discordamos. Por isso não posso simplesmente jogar pedra nos esotéricos, só dizer que concordamos e discordamos de Jâmblico em lugares diferentes, e que essa diferença é importante para mim.

Com isso, posso oferecer a definição com a qual trabalho ao longo desta série: teurgia é uma forma de prática sagrada por meio da qual o praticante é elevado, através do uso de símbolos e ritos nos quais os próprios Deuses estão presentes, uma participação efetiva na atividade divina, um operar com eles. Os ritos não aludem aos Deuses nem os representam; os Deuses e Daimones estão realmente presentes nos ritos, não “simbolicamente” em um sentido moderno. Essa presença real é o fundamento de toda a eficácia teúrgica e aquilo que distingue essa prática de outras formas de esoterismo que mantêm apenas uma relação representacional com o sagrado.