O Seminário Permanente de Teurgia (SPT) terá no dia 11 de fevereiro o início do seu primeiro ciclo de 2026. Iremos discutir a obra “Divination and Theurgy in Neoplatonism” de Crystal Addey em seis encontros de frequência quinzenal de duração média de 1:30h às quartas-feiras, no horário de 19:00-21:00 nos dias 11/02, 25/02, 11/03, 25/03, 08/04 e 22/04.
As aulas serão realizadas por videoconferência no GOOGLE MEET e também disponibilizadas para que os alunos possam assistir mais tarde de forma assíncrona.
Nossas aulas são baseadas na literatura acadêmica atual sobre Teurgia, Neoplatonismo, se fundamentando em uma abordagem crítica e com foco no praticante.
O espaço não é simplesmente o “lugar” onde uma experiência religiosa ocorre, mas um elemento constitutivo e ativo da mesma. Na realidade, um lugar não é simplesmente um lugar, mas uma situação, um conjunto de disposições que tornam possíveis as coisas que nele se situam. Mesmo as coisas que soam dessituadas, só são relativamente dissonantes frente ao local no qual se originam, do contrário, elas nem mesmo lá existiriam.
O local também pode ser lido de forma viciosa, e disso se desdobram os diversos ufanismos, formas de pensamento xenófobo e particularismos extremistas. O vício do localismo surge quando o particular se absolutiza, perdendo sua transparência ao universal; inversamente, o universalismo abstrato falha ao descarnar-se de sua materialidade situacional.
Porém, há um potencial Universal no local. O crítico literário Antônio Cândido viu na obra de Guimarães Rosa essa possibilidade, a chamando de surregionalismo: o movimento pelo qual o mais profundamente local revela-se como o mais genuinamente universal, não por abandonar suas particularidades, mas por aprofundar-se nelas até encontrar aquilo que as fundamenta.
É necessária uma teologia que também se diga surregionalista, vendo a revelação do lugar como a expressão universal dos Deuses. Em outros textos (como em “Como se tornar um Demiurgo”) falei da necessidade de se pensar um mundo onde muitos mundos possam caber, e aqui reformulo essa necessidade em outra clave: pensar em uma teologia onde o regional não seja suprassumido pelo Universal, mas que seja reconhecido como meio inescapável pelo qual essa universalidade se faz propriamente acessível. Nenhum lugar pode reivindicar exclusividade sobre o divino, ao mesmo tempo que o divino jamais se apresenta de forma “pura”, desligada das mediações concretas que constituem nossa experiência mundana. A universalidade dos Deuses não se manifesta apesar das particularidades locais, mas precisamente através delas, condições providenciais de sua própria revelação. Não há cidade mais sagrada que a nossa, ao mesmo tempo que toda cidade é igualmente sagrada.
Chamo de Topofania o modo como os Deuses se fazem presentes na interação complexa entre geografia física, cultura local e história regional, gerando formas únicas de expressão religiosa que respondem organicamente às especificidades de cada localidade. Honrar o lugar é poder reconhecer a presença Universal dos Deuses nessa configuração regionalmente situada, é ouvir o sotaque que cada Deus adquire ao se expressar através dos meios pelos quais eles se tornam presentes aonde vivemos e estamos. Os Deuses não habitam um “além” separado do mundo, mas se manifestam na própria textura das coisas. O “sotaque” divino não é uma distorção de uma verdade primordial, mas a própria modalidade através da qual essa verdade se torna acessível e vivível.
Do ponto de vista histórico, é inegável que práticas rituais, expressões devocionais e mesmo as interpretações teológicas desenvolvem-se em diálogo constante com o ambiente natural e cultural circundante. O calendário litúrgico, por exemplo, emerge da interseção entre os ciclos naturais locais e as camadas históricas de significado acumuladas no território, criando uma temporalidade sagrada que é simultaneamente universal e profundamente local. A fauna e a flora (e seus guardiões invisíveis) tecem teias de sunthemata, a partir do qual a luz dos Deuses pode se tornar inteligível a partir da coloração específica de sua mediação.
Os sunthemata, os meios através dos quais o divino se torna legível e acessível, não são convenções puramente arbitrárias impostas sobre uma natureza muda, mas brotam da própria capacidade expressiva do mundo. Se os modelamos, o fazemos a partir do barro que está abaixo de nós, não há construção “pura”, tudo que moldamos está disponível para ser moldado (e também por isso a tecnofania não deve ser tratada como demoníaca a priori, mas julgada de acordo com sua capacidade de proporcionar eudaimonia).
A religião pode nos elevar para acima da corporalidade, mas ela age e se expressa como experiência corporificada, e é uma ilusão pensar que tal corpo se restringe ao nosso limite dérmico. Não pensamos e vivemos no mundo, mas pensamos e vivemos com o mundo (e através dele). Rezamos com os pulmões que respiram o ar comum, com os pés que tocam, com os ouvidos que escutam os sons da floresta ou da cidade. A sensação de unidade que caracteriza certas experiências espirituais não é a aniquilação das diferenças, mas o reconhecimento de que estas diferenças são modulações de uma mesma vida que nos atravessa e nos constitui.
Com isso não quero levantar só uma teoria sobre a manifestação dos Deuses nos lugares, mas também propor uma prática de atenção à presença divina que já sempre nos circunda e nos habita. É aprender a ler as escrituras que a própria terra inscreveu em suas paisagens, reconhecendo em cada configuração geográfica uma modalidade específica da revelação divina. Para nós politeístas contemporâneos, não há diferença entre o “Pequeno Corão” e o “Grande Corão”.
Mas aceitar isto tem suas consequências. Receberemos com alegria os novos modos pelos quais os Deuses podem nos revelar? Estamos preparados para expressar novos mitos e elaborar novos ritos que honrem o sotaque dos Deuses? Estamos abertos para os novos nomes com os quais eles podem se revelar?
No vôo do Guará surge um Hermes Solar, nas penas do Urubu-rei se manifesta um Saturno jovial. Eles esperam para receber o culto adequado. Novos cânones são necessários para que novos mundos possam se expressar.
Chamamos de “racionalidade crítica” aquela disposição da razão em avaliar suas próprias condições de efetivação, ou seja, a sua “situação” epistêmica, que envolve desde seu aparato cognitivo até estruturas sociais e históricas mais amplas. Ela nos capacita a reconhecer tanto as possibilidades quanto os limites do conhecimento humano sobre o divino, sem cair nos extremos do fundamentalismo e do relativismo. Boa parte das incompreensões de praticantes contemporâneos frente aos antigos deriva da incapacidade de realizar essa disposição crítica, não podendo avaliar os limites do pensamento dos antigos em relação a nós e também o seu inverso. A falta dessa disposição crítica nos incapacita de construir uma Teurgia viva, nos aprisionando a uma noção reificada e caricata de Tradição. Quando não compreendemos as condições históricas e culturais que informaram as práticas antigas, corremos o risco de as transformar em fetiches vazios ou, pior ainda, em instrumentos de uma nostalgia reacionária que idealiza um passado que nunca existiu da forma como o imaginamos. Simultaneamente, quando não reconhecemos nossos próprios condicionamentos contemporâneos, perdemos a capacidade de traduzir criativamente as intuições dos antigos para nosso tempo presente.
A Teurgia antiga já surge como uma bricolagem, uma tradição inventada que se alimenta do continuum de práticas rituais do sincretismo religioso mediterrâneo que a antecede. Um pensador como Jâmblico, mesmo que não fosse capaz de admitir, estava realizando um trabalho essencialmente criativo ao não só interpretar as práticas hieráticas em termos do platonismo tardio, mas em modificar radicalmente tanto as práticas quanto o próprio pensamento platônico neste processo. Um trabalho criativo limitado por seu próprio suor e sangue, por sua situação social e histórica, limitação que é condição de sua própria realização enquanto mediação. Jâmblico não estava simplesmente comentando Platão ou preservndo rituais egípcios; estava forjando uma nova síntese que transformava tanto a filosofia quanto a prática ritual. Suas limitações históricas – ser um sírio helenizado do século III vivendo sob o Império Romano em crise – não eram obstáculos externos ao seu pensamento, mas as próprias condições que tornaram possível sua genialidade sintética.
A descoberta de que há muito sangue e suor humano mediando nosso discurso sobre o Sagrado não precisa ser uma concessão a um materialismo que reduza o pensamento às suas condições de enunciação, algo que seria tão ingênuo quanto a ideia de um discurso que possua uma relação de identidade, pura e imaculada, com a Verdade. Reconhecer a mediação humana em nossa aproximação do divino não equivale a negar a realidade do divino, mas a compreender que toda relação com o Sagrado é necessariamente uma relação encarnada, situada, histórica. Os Deuses não falam conosco apesar de nossa humanidade, mas através dela. A encarnação não é um obstáculo à transcendência, mas seu veículo.
A humildade epistemológica que a racionalidade crítica nos proporciona, de reconhecer os limites nossos e dos antigos, nos dá também uma vantagem considerável. Podemos dar continuidade ao processo criativo de nossos antecessores, partindo daqueles elementos que sobreviveram às tempestades da história, não só os adequando a novos contextos, mas elaborando novos elementos através das fissuras abertas pelos seus próprios limites. Esta humildade é o fundamento de forma superior de coragem: a coragem de criar responsavelmente, sabendo que nossa criação será julgada não apenas por sua originalidade, mas por sua capacidade de abrir novos caminhos para o encontro com o divino. Somos herdeiros e inventores simultaneamente, guardiões e revolucionários de uma tradição que só permanece viva enquanto continua a se transformar.
Theurgy is fundamentally a ritual tradition invented and maintained by writing about it, a ritual tradition ‘in ink’, which every participant in the discourse can vary and develop further on his own.” – Tanaseanu-Döbler, Theurgy in Late Antiquity, p284.
Döbler está correta ao caracterizar a Teurgia como uma tradição inventada, sustentada pelo diálogo filosófico, o que permite que cada participante possa recepcionar e elaborar sua perspectiva sobre a mesma. Porém, não é só a tinta que lhe mantém viva, mas o contato direto com os Deuses mediado pelo som dos hinos, pelo calor das velas e pelo cheiro do incenso. Há uma dialética viva entre teoria e prática: se a primeira informa a última, a segunda nos traz sempre novidades que nos obrigam a expandir os horizontes da primeira ao frequentemente desafiar e transformar nossa compreensão conceitual. Os Deuses ensinam tanto através dos textos quanto através dos fenômenos, tanto pela palavra quanto pelo silêncio, tanto pela luz da compreensão quanto pela escuridão do mistério.
O politeísmo contemporâneo deve se afastar radicalmente de uma teologia “cessacionista”. Em suas formas mais extremas, os Deuses só teriam falado conosco no passado (por vezes imemorial e mítico) e nada mais teriam a dizer. Essa ideia, mesmo em suas versões moderadas — como a utilizada por Jâmblico para sustentar a suposta superioridade dos nomes divinos egípcios sobre os gregos —, nos condena à incapacidade de sacralizar novos nomes e compreender que os Deuses continuam a nos falar. O cessacionismo é uma forma sutil de ateísmo prático: afirma a existência dos Deuses, mas nega sua atividade presente, os transformando em monumentos de um passado morto.
Por outro lado, um politeísmo sem referências históricas e textuais também representa um risco considerável. O apego à pura novidade pode nos fazer incorrer em erros já há muito resolvidos ou, pelo menos, parcialmente abertos à nossa análise e desenvolvimento. A novidade não é um valor em si mesmo, nem tampouco a tradição. Suas importâncias residem no diálogo conflituoso e criativo que nos permite elaborar estruturas cada vez mais sofisticadas, pelas quais podemos escutar e experimentar os Deuses em nosso presente, garantindo que sejam igualmente escutados e experimentados no futuro. É necessário criar uma Tradição — e, mais do que isso, criar uma Tradição de criação. Uma tradição que não apenas preserve formas do passado, mas que cultive a capacidade criativa como um valor sagrado em si mesmo. Uma tradição que compreenda que a fidelidade aos Deuses não consiste em repetir mecanicamente gestos antigos, mas em manter viva a mesma disposição criativa que permitiu aos antigos desenvolverem suas próprias sínteses originais. Criar uma tradição de criação significa educar praticantes que sejam capazes de pensar teurgicamente, não apenas de executar rituais teúrgicos.
O objetivo deste projeto é produzir interlocutores — pessoas capazes de, cada uma ao seu modo, poder construir o mosaico de uma Teurgia contemporânea, ao mesmo tempo criativa e rigorosa (pois leva a sério a própria noção de criação como diálogo com o divino), anti-reacionária e aberta. Buscamos formar não seguidores, mas colegas.