Para uma Hierática dos pequenos iniciados e dos camponeses do espírito

O único tipo de prática espiritual que posso ensinar a alguém é aquela que pratico, e por isso preciso falar um pouco de mim antes de falar do que proponho. Sou um homem comum e não há nada de excepcional em mim: não sou um grande iniciado, não tenho superpoderes, não fui educado ( ao menos explicitamente) por daimones na infância, e minhas experiências religiosas são as de um homem religioso típico, soando como fantásticas somente para aqueles que não têm contato com este mundo. Sim, minha vida é permeada por Deuses e Daimones, mas para mim essa é simplesmente a experiência de alguém que está disposto a reconhecer a presença deles e com eles se relacionar. Estou nesse caminho desde meados de 2014, e o que há de mais importante de lá para cá não são os efeitos especiais, eles existem, mas o essencial foi eu ter me tornado uma pessoa melhor. Sim, é isso: algo que pode soar profundamente naïve para muitos, mas se há algo que este caminho me trouxe foi Felicidade, no sentido eudaimônico de uma vida mais plena e mais virtuosa, mais próxima dos Deuses e, portanto, mais próxima do que há de mais elevado em mim.
Não há nada de mais relevante para dizer sobre mim, e isso é precisamente o centro deste texto. O tipo de Teurgia que ensino é informada por filósofos-hierofantes que não só viviam em um mundo diferente, mas também viviam de forma diferente daquela em que eu vivo. Não sou um aristocrata nem de posses, nem de sangue, nem de espírito. Talvez eu seja um camponês do espírito, e por isso o modo como penso e pratico a Arte Hierática, mesmo que informado pelos antigos, será necessariamente diferente deles. Partir dessa diferença consciente, desses pés-no-chão, permitiu-me construir uma espiritualidade que considero honesta na medida em que não busca falsificar a medida dos seus passos e também não cair nas muitas arapucas montadas pelos próprios antigos. O camponês do espírito não é aquele que ignora a tradição, mas aquele que a recebe com as mãos sujas de terra, isto é, a partir de uma experiência vivida, lendo os antigos com gratidão e com distância crítica, como quem recebe conselhos de um parente distante e sábio que, no entanto, é muito distinto de si mesmo.
Há uma liberdade específica que nasce da ausência de pretensão: quando não nos apresentamos como mais do que somos, tornamo-nos mais difíceis de enganar e mais aptos a enxergar o que de fato está diante de nós. O camponês do espírito não precisa proteger uma reputação iniciática, não precisa defender uma linhagem, não precisa sustentar uma imagem de elevação espiritual perante uma comunidade de discípulos. Ele pode, simplesmente, dizer o que vê. E essa liberdade, tão barata em aparência, é extraordinariamente rara nos círculos espirituais hoje em dia.
Um homem comum não pode ter o luxo de se perder em fantasias e auto-enganos, pois tem sempre muito a perder. Pequenos prejuízos sempre poderão ser contornados por aqueles que têm tempo e recursos para tanto, enquanto para nós não há prejuízo que seja pequeno. A história dos movimentos espirituais é, em grande parte, uma história de pessoas comuns que confiaram demais em figuras que prometiam demais. O discernimento não é uma falta de fé, mas o que permite que a fé sobreviva ao contato com a realidade. Precisamos saber com quem e com o quê estamos lidando e, ainda, precisamos conhecer os limites e as condições pelas quais esse saber se estabelece. O idealismo solipsista e o realismo ingênuo são dois extremos que só podem ser atraentes para aqueles que têm muito tempo a perder, e é por isso que meu politeísmo e minha espiritualidade são Críticos. Foi o “medo de água fria” que me levou a adotar tal epistemologia e, claro, também sua cogência e poder explicativo.
Quem procura soteriologias geralmente quer apenas se apegar a uma delas e desfrutar de sua promessa. Não é o nosso caso — ainda mais quando muitos de nós estamos nesse caminho precisamente porque fomos salvos de alguma soteriologia. Não temos recursos suficientes para sermos ingênuos, e não há nada de errado em ter a cautela necessária para não sermos enganados por estelionatários espirituais, sejam humanos ou não. É por isso que ensino somente o caminho das pedras, presumindo que meus leitores sejam adultos e responsáveis no seu contato com os Deuses, e que não precisem da minha tutela. Estou falando para pessoas adultas, que tenham consciência do peso e da responsabilidade que esta condição lhes confere, o homem comum não pode brincar de puer aeternus.
Permanecer eternamente jovem, eterno buscador, eterno iniciante que nunca precisa prestar contas do que aprendeu exige uma rede de sustentação que a maioria das pessoas simplesmente não tem. O homem comum tem filhos para criar, contas a pagar, obrigações que não esperam sua iluminação. E é essa pressão da vida concreta que pode se tornar, se bem aproveitada, um dos seus maiores instrumentos espirituais, a maturidade.
Não posso prometer mais do que posso entregar, e o que tenho para compartilhar é precisamente este caminho, ainda em construção, que me trouxe até aqui. Quero proporcionar a outros homens comuns a indicação de veredas pelas quais possam se relacionar com os Deuses e aprofundar tal relação no percurso de uma boa vida, de uma vida teofanicamente rica e plena. Um caminho trilhado com cuidado, mas também com criatividade e visão de futuro, onde possamos elaborar novos modos de vida e novas formas de nos relacionarmos com os Deuses, dialogando criticamente com os antigos e acolhendo de forma responsável a voz dos Deuses e Daimones que se revelam no decorrer de nosso amadurecimento espiritual.
Uma vida teofanicamente rica não é necessariamente uma vida de visões e revelações dramáticas, também o é, mas é fundamentalmente uma vida em que os Deuses encontram lugar no ritmo das estações, no cuidado com os mortos, na atenção à mesa posta, na forma como se recebe um hóspede ou se atravessa uma crise. Nós, os camponeses do espírito, não esperamos o momento sublime para se relacionar com o sagrado, cultivamos esse relacionamento nos gestos menores, sabendo que é na regularidade da prática, e não na intensidade dos picos, que uma vida espiritual real se constroi.
Esse tipo de Teurgia que proponho está articulada a um contexto mais amplo que chamo de Politeísmo Eosíaco: um nome para uma espiritualidade pagã contemporânea que busca um caminho alternativo ao reconstrucionismo, ao paganismo esotérico (e à Tradição Esotérica Ocidental como um todo), aos revivalismos e aos paganismos etnocentrados. Por isso não seria um problema assumir “Teurgia Eosíaca” como nome para a Teurgia do homem comum que aqui proponho, já que o politeísmo eosíaco é fundamentalmente um politeísmo do homem comum. É uma espiritualidade que tem genealogias nobres nem iniciações secretas para se legitimar, mas se fundamenta naquilo que produz na vida concreta de quem a pratica.
Aurora é a luz que permite ver o contorno das coisas antes que elas sejam engolidas pelo brilho. Há algo adequado nessa imagem para uma espiritualidade que se propõe humilde e acordada: não a revelação total, não o sistema completo, mas o suficiente para caminhar com os olhos abertos. O camponês do espírito é, nesse sentido, um filho da aurora, alguém que aprendeu a trabalhar com o que a luz nascente oferece, sem esperar que o dia seja pleno para começar.
Mas, antes de qualquer coisa, o que entendo por Teurgia? Antes de tudo, precisamos tentar compreender o que este termo significava ontem e o que significa hoje, para então discernir com precisão do que estamos falando. E isso será abordado no próximo texto.
