
O espaço não é simplesmente o “lugar” onde uma experiência religiosa ocorre, mas um elemento constitutivo e ativo da mesma. Na realidade, um lugar não é simplesmente um lugar, mas uma situação, um conjunto de disposições que tornam possíveis as coisas que nele se situam. Mesmo as coisas que soam dessituadas, só são relativamente dissonantes frente ao local no qual se originam, do contrário, elas nem mesmo lá existiriam.
O local também pode ser lido de forma viciosa, e disso se desdobram os diversos ufanismos, formas de pensamento xenófobo e particularismos extremistas. O vício do localismo surge quando o particular se absolutiza, perdendo sua transparência ao universal; inversamente, o universalismo abstrato falha ao descarnar-se de sua materialidade situacional.
Porém, há um potencial Universal no local. O crítico literário Antônio Cândido viu na obra de Guimarães Rosa essa possibilidade, a chamando de surregionalismo: o movimento pelo qual o mais profundamente local revela-se como o mais genuinamente universal, não por abandonar suas particularidades, mas por aprofundar-se nelas até encontrar aquilo que as fundamenta.
É necessária uma teologia que também se diga surregionalista, vendo a revelação do lugar como a expressão universal dos Deuses. Em outros textos (como em “Como se tornar um Demiurgo”) falei da necessidade de se pensar um mundo onde muitos mundos possam caber, e aqui reformulo essa necessidade em outra clave: pensar em uma teologia onde o regional não seja suprassumido pelo Universal, mas que seja reconhecido como meio inescapável pelo qual essa universalidade se faz propriamente acessível. Nenhum lugar pode reivindicar exclusividade sobre o divino, ao mesmo tempo que o divino jamais se apresenta de forma “pura”, desligada das mediações concretas que constituem nossa experiência mundana. A universalidade dos Deuses não se manifesta apesar das particularidades locais, mas precisamente através delas, condições providenciais de sua própria revelação. Não há cidade mais sagrada que a nossa, ao mesmo tempo que toda cidade é igualmente sagrada.
Chamo de Topofania o modo como os Deuses se fazem presentes na interação complexa entre geografia física, cultura local e história regional, gerando formas únicas de expressão religiosa que respondem organicamente às especificidades de cada localidade. Honrar o lugar é poder reconhecer a presença Universal dos Deuses nessa configuração regionalmente situada, é ouvir o sotaque que cada Deus adquire ao se expressar através dos meios pelos quais eles se tornam presentes aonde vivemos e estamos. Os Deuses não habitam um “além” separado do mundo, mas se manifestam na própria textura das coisas. O “sotaque” divino não é uma distorção de uma verdade primordial, mas a própria modalidade através da qual essa verdade se torna acessível e vivível.
Do ponto de vista histórico, é inegável que práticas rituais, expressões devocionais e mesmo as interpretações teológicas desenvolvem-se em diálogo constante com o ambiente natural e cultural circundante. O calendário litúrgico, por exemplo, emerge da interseção entre os ciclos naturais locais e as camadas históricas de significado acumuladas no território, criando uma temporalidade sagrada que é simultaneamente universal e profundamente local. A fauna e a flora (e seus guardiões invisíveis) tecem teias de sunthemata, a partir do qual a luz dos Deuses pode se tornar inteligível a partir da coloração específica de sua mediação.
Os sunthemata, os meios através dos quais o divino se torna legível e acessível, não são convenções puramente arbitrárias impostas sobre uma natureza muda, mas brotam da própria capacidade expressiva do mundo. Se os modelamos, o fazemos a partir do barro que está abaixo de nós, não há construção “pura”, tudo que moldamos está disponível para ser moldado (e também por isso a tecnofania não deve ser tratada como demoníaca a priori, mas julgada de acordo com sua capacidade de proporcionar eudaimonia).
A religião pode nos elevar para acima da corporalidade, mas ela age e se expressa como experiência corporificada, e é uma ilusão pensar que tal corpo se restringe ao nosso limite dérmico. Não pensamos e vivemos no mundo, mas pensamos e vivemos com o mundo (e através dele). Rezamos com os pulmões que respiram o ar comum, com os pés que tocam, com os ouvidos que escutam os sons da floresta ou da cidade. A sensação de unidade que caracteriza certas experiências espirituais não é a aniquilação das diferenças, mas o reconhecimento de que estas diferenças são modulações de uma mesma vida que nos atravessa e nos constitui.
Com isso não quero levantar só uma teoria sobre a manifestação dos Deuses nos lugares, mas também propor uma prática de atenção à presença divina que já sempre nos circunda e nos habita. É aprender a ler as escrituras que a própria terra inscreveu em suas paisagens, reconhecendo em cada configuração geográfica uma modalidade específica da revelação divina. Para nós politeístas contemporâneos, não há diferença entre o “Pequeno Corão” e o “Grande Corão”.
Mas aceitar isto tem suas consequências. Receberemos com alegria os novos modos pelos quais os Deuses podem nos revelar? Estamos preparados para expressar novos mitos e elaborar novos ritos que honrem o sotaque dos Deuses? Estamos abertos para os novos nomes com os quais eles podem se revelar?
No vôo do Guará surge um Hermes Solar, nas penas do Urubu-rei se manifesta um Saturno jovial. Eles esperam para receber o culto adequado. Novos cânones são necessários para que novos mundos possam se expressar.
