
Chamamos de “racionalidade crítica” aquela disposição da razão em avaliar suas próprias condições de efetivação, ou seja, a sua “situação” epistêmica, que envolve desde seu aparato cognitivo até estruturas sociais e históricas mais amplas. Ela nos capacita a reconhecer tanto as possibilidades quanto os limites do conhecimento humano sobre o divino, sem cair nos extremos do fundamentalismo e do relativismo. Boa parte das incompreensões de praticantes contemporâneos frente aos antigos deriva da incapacidade de realizar essa disposição crítica, não podendo avaliar os limites do pensamento dos antigos em relação a nós e também o seu inverso. A falta dessa disposição crítica nos incapacita de construir uma Teurgia viva, nos aprisionando a uma noção reificada e caricata de Tradição. Quando não compreendemos as condições históricas e culturais que informaram as práticas antigas, corremos o risco de as transformar em fetiches vazios ou, pior ainda, em instrumentos de uma nostalgia reacionária que idealiza um passado que nunca existiu da forma como o imaginamos. Simultaneamente, quando não reconhecemos nossos próprios condicionamentos contemporâneos, perdemos a capacidade de traduzir criativamente as intuições dos antigos para nosso tempo presente.
A Teurgia antiga já surge como uma bricolagem, uma tradição inventada que se alimenta do continuum de práticas rituais do sincretismo religioso mediterrâneo que a antecede. Um pensador como Jâmblico, mesmo que não fosse capaz de admitir, estava realizando um trabalho essencialmente criativo ao não só interpretar as práticas hieráticas em termos do platonismo tardio, mas em modificar radicalmente tanto as práticas quanto o próprio pensamento platônico neste processo. Um trabalho criativo limitado por seu próprio suor e sangue, por sua situação social e histórica, limitação que é condição de sua própria realização enquanto mediação. Jâmblico não estava simplesmente comentando Platão ou preservndo rituais egípcios; estava forjando uma nova síntese que transformava tanto a filosofia quanto a prática ritual. Suas limitações históricas – ser um sírio helenizado do século III vivendo sob o Império Romano em crise – não eram obstáculos externos ao seu pensamento, mas as próprias condições que tornaram possível sua genialidade sintética.
A descoberta de que há muito sangue e suor humano mediando nosso discurso sobre o Sagrado não precisa ser uma concessão a um materialismo que reduza o pensamento às suas condições de enunciação, algo que seria tão ingênuo quanto a ideia de um discurso que possua uma relação de identidade, pura e imaculada, com a Verdade. Reconhecer a mediação humana em nossa aproximação do divino não equivale a negar a realidade do divino, mas a compreender que toda relação com o Sagrado é necessariamente uma relação encarnada, situada, histórica. Os Deuses não falam conosco apesar de nossa humanidade, mas através dela. A encarnação não é um obstáculo à transcendência, mas seu veículo.
A humildade epistemológica que a racionalidade crítica nos proporciona, de reconhecer os limites nossos e dos antigos, nos dá também uma vantagem considerável. Podemos dar continuidade ao processo criativo de nossos antecessores, partindo daqueles elementos que sobreviveram às tempestades da história, não só os adequando a novos contextos, mas elaborando novos elementos através das fissuras abertas pelos seus próprios limites. Esta humildade é o fundamento de forma superior de coragem: a coragem de criar responsavelmente, sabendo que nossa criação será julgada não apenas por sua originalidade, mas por sua capacidade de abrir novos caminhos para o encontro com o divino. Somos herdeiros e inventores simultaneamente, guardiões e revolucionários de uma tradição que só permanece viva enquanto continua a se transformar.
Theurgy is fundamentally a ritual tradition invented and maintained by writing about it, a ritual tradition ‘in ink’, which every participant in the discourse can vary and develop further on his own.” – Tanaseanu-Döbler, Theurgy in Late Antiquity, p284.
Döbler está correta ao caracterizar a Teurgia como uma tradição inventada, sustentada pelo diálogo filosófico, o que permite que cada participante possa recepcionar e elaborar sua perspectiva sobre a mesma. Porém, não é só a tinta que lhe mantém viva, mas o contato direto com os Deuses mediado pelo som dos hinos, pelo calor das velas e pelo cheiro do incenso. Há uma dialética viva entre teoria e prática: se a primeira informa a última, a segunda nos traz sempre novidades que nos obrigam a expandir os horizontes da primeira ao frequentemente desafiar e transformar nossa compreensão conceitual. Os Deuses ensinam tanto através dos textos quanto através dos fenômenos, tanto pela palavra quanto pelo silêncio, tanto pela luz da compreensão quanto pela escuridão do mistério.
O politeísmo contemporâneo deve se afastar radicalmente de uma teologia “cessacionista”. Em suas formas mais extremas, os Deuses só teriam falado conosco no passado (por vezes imemorial e mítico) e nada mais teriam a dizer. Essa ideia, mesmo em suas versões moderadas — como a utilizada por Jâmblico para sustentar a suposta superioridade dos nomes divinos egípcios sobre os gregos —, nos condena à incapacidade de sacralizar novos nomes e compreender que os Deuses continuam a nos falar. O cessacionismo é uma forma sutil de ateísmo prático: afirma a existência dos Deuses, mas nega sua atividade presente, os transformando em monumentos de um passado morto.
Por outro lado, um politeísmo sem referências históricas e textuais também representa um risco considerável. O apego à pura novidade pode nos fazer incorrer em erros já há muito resolvidos ou, pelo menos, parcialmente abertos à nossa análise e desenvolvimento. A novidade não é um valor em si mesmo, nem tampouco a tradição. Suas importâncias residem no diálogo conflituoso e criativo que nos permite elaborar estruturas cada vez mais sofisticadas, pelas quais podemos escutar e experimentar os Deuses em nosso presente, garantindo que sejam igualmente escutados e experimentados no futuro. É necessário criar uma Tradição — e, mais do que isso, criar uma Tradição de criação. Uma tradição que não apenas preserve formas do passado, mas que cultive a capacidade criativa como um valor sagrado em si mesmo. Uma tradição que compreenda que a fidelidade aos Deuses não consiste em repetir mecanicamente gestos antigos, mas em manter viva a mesma disposição criativa que permitiu aos antigos desenvolverem suas próprias sínteses originais. Criar uma tradição de criação significa educar praticantes que sejam capazes de pensar teurgicamente, não apenas de executar rituais teúrgicos.
O objetivo deste projeto é produzir interlocutores — pessoas capazes de, cada uma ao seu modo, poder construir o mosaico de uma Teurgia contemporânea, ao mesmo tempo criativa e rigorosa (pois leva a sério a própria noção de criação como diálogo com o divino), anti-reacionária e aberta. Buscamos formar não seguidores, mas colegas.
