Sobre

“Toda coisa revela o mundo inteiro. Toda coisa abrange todas as coisas” — Vilém Flusser.

Somos um laboratório de conceitos e práticas criado no interstício entre Passado e Futuro. Nosso objetivo é criar novas formas de arte hierática, resgatando o espírito politeísta da teurgia clássica e da espiritualidade mediterrânea de forma criativa, crítica e em diálogo com as demandas do nosso tempo atual e futuro. Buscamos contribuir para a construção de um caminho sincrético: a confluência de uma tradição que existiu apenas ontem e uma religião que só existirá plenamente amanhã.

Não somos uma ordem ou templo, mas um laboratório: um grupo de praticantes independentes com seus próprios caminhos, unidos pelo objetivo comum de elaborar uma espiritualidade politeísta que não teme a novidade inerente à nossa contemporaneidade, abraçando-a de forma inteiramente consciente.

Não somos a restauração de cultos antigos nem a expressão de uma transmissão iniciática clandestina que remonta à Antiguidade. Nossa autenticidade não repousa, nem deseja repousar, em imagens idealizadas do passado, e sim na presença viva dos deuses no presente.

Transmutamos o veneno helênico criticado pelo mestre Jâmblico — a inventividade da razão e o gosto por novos territórios — em um elixir, ao entender que as palavras dos antigos têm seu valor ao nos inspirar a encontrar novas palavras ainda não proferidas por eles.

Compreendemos nosso lugar na construção coletiva de uma religiosidade que assume sua relação com a antiguidade em uma clave distinta da “restauração” ou “reconstrução” das antigas tradições, focando-se em uma forma autoconsciente e crítica de criação religiosa. A inovação entrelaça-se com a reverência aos antigos, permitindo que símbolos, rituais e narrativas sejam compreendidos como elementos vivos, que refletem a interação contínua entre os praticantes, os deuses e o cosmos. Rejeitamos toda forma de “cessacionismo pagão” e estamos abertos a novos modos pelos quais os deuses podem se nomear e se expressar, obviamente sem abandonar o rigor e o discernimento espiritual.

Uma Abordagem de Código Aberto

Somos uma iniciativa criada por pessoas comuns para pessoas comuns. Não somos “aristocratas do espírito”, grandes iluminados, mestres do templo ou gurus, e nem confiamos em quem se coloque nessas posições. Somos seres humanos vivendo vidas humanas, com o objetivo central de desenvolver ferramentas capazes de auxiliar praticantes politeístas contemporâneos, humanos como nós, a cultivar uma vida de virtude e comunhão com os deuses.

Nossa proposta busca elaborar recursos autônomos e relativamente independentes das grandes correntes do esoterismo ocidental. Diferentemente de tradições que enfatizam hierarquias iniciáticas ou conhecimentos secretos, desenvolvemos uma abordagem transparente em relação ao Sagrado.

Nossa metodologia estabelece um diálogo direto com as fontes antigas do Mediterrâneo helenístico, particularmente o Orfismo, o Neoplatonismo, o Hermetismo clássico, as práticas místicas dos Papiros Mágicos e a Teurgia dos Oráculos Caldeus, as analisando através de ferramentas críticas contemporâneas e colocando-as em diálogo com a filosofia e o pensamento atual. Trata-se precisamente de olhar para trás sem perder de vista o que está à nossa frente.

Queremos construir uma religiosidade simultaneamente enraizada na antiguidade e sensível às necessidades e insights do nosso tempo, sem depender de linhagens iniciáticas questionáveis ou de autoridades espirituais autoconstituídas.

Não somos lamentadores de uma época perdida, mas pessoas comuns que buscam elaborar novos horizontes em diálogo com os deuses e com aqueles que os honraram no passado.

Surregionalismo e a Topofania do Guará

Nosso símbolo faz referência ao pássaro Guará, um Íbis vermelho (Eudocimus ruber), afirmando nosso caráter surregionalista. O conceito de surregionalismo, inspirado na análise que Antonio Candido fez da obra de Guimarães Rosa, representa uma superação do regionalismo através do próprio regionalismo – um paradoxo criativo que enraíza profundamente o local enquanto o transfigura através de linguagem e visão universalizantes.

Assim como Rosa criou uma literatura que transcende o regional sem negá-lo, nossa abordagem espiritual busca uma topofania – uma manifestação do sagrado que emerge da especificidade de nossa bioregião, sem cair no nacionalismo ou outras formas de ufanismo romântico.

O vermelho do Guará, esta Ave que nos revela um Hermes apolíneo e um Apolo hermesíaco, nos ensina que toda autêntica manifestação espiritual deve pulsar com a vida específica de seu lugar e tempo, sem perder de vista as conexões cósmicas que nos ligam ao todo. É uma cor que evoca tanto o nascente (Eos) quanto o poente, simbolizando nossa posição temporal no interstício entre o que fomos e o que seremos.